terça-feira, 21 de agosto de 2012

Inclusão e Exclusão Digital

..e a nova era da segregação

Durante a Idade Média, a classe pobre era renegada ao analfabetismo, sabendo apenas por empirismo a língua falada, que acabava se corrompendo em centenas de dialetos chamados de “língua vulgar”. Essa separação do povo com a língua nobre e da literatura era o método mais óbvio de segregação, já que a fala é um fator de grande importância em uma miríade de atividades humanas; é possível ir ainda mais longe e dizer que não apenas a fala, mas sim a linguagem em um todo (corporal, verbal e todas as suas alternativas) como um processo de segregação e divisão da sociedade, que era algo semelhante a um castamento, já que o único método do camponês se tornar um nobre era pagando quantias absurdas de dinheiro – e ainda assim ele sofreria preconceito nas cortes por ser descendente do “sangue plebeu”.
Vê-se então, no contexto contemporâneo, uma nova era de segregação medida pela inclusão digital do indivíduo. A informação corre e o poder daquilo que é posto na internet é infinitamente maior do que é simplesmente dito ou fisicamente distribuído. O povo – todos, na verdade – teriam, com a internet, a capacidade de desenvolver seu pensamento, um novo método de lógica e razão. A criação de uma grande rede digital é, em teoria, uma revolução tão grande ou ainda maior quanto à das ágoras na Grécia antiga; todos os indivíduos podem, globalmente, debater e desenvolver seu pensamento de modo crítico. Um novo modo de pensamento e lógica surge.
O idealismo por trás do potencial da internet é quase irônico quando, na verdade, tal ferramenta é utilizada com o sentido contrário. A alienação ocorre através da saturação da internet com informações absolutamente fúteis, glorificação de ideias e glamorização da ignorância. Ao invés de haver debate, o indivíduo se divide em grupos que pensam completamente igual, um processo de autoafirmação pretensioso que não é nada além de maligno para a sociedade. É, logo, um método secundário de segregação que imediatamente ridiculariza aquele que não concorde com as ideias exaltadas.
Entende-se então que a inclusão digital é tão separativa quanto à própria exclusão, com a diferença de que aquele que está incluído no meio é capaz de se afirmar no meio contemporâneo. Existem, pois, vários níveis de inclusão e exclusão; estes dois conceitos não são monocromáticos como preto e branco, mas sim existem em tons de cinza.
Em um exemplo atual, são citáveis os jogos de computador e consoles. Ao ponto em que vão evoluindo em jogabilidade, gráficos e diversos outros quesitos, os computadores podem dinamicamente se desenvolver também, trocando peças e melhorando o “poder geral de processamento”. Aqueles que não podem comprar tais peças também não podem se aproveitar dos novos lançamentos e, ao ver aqueles que são capazes, sentem-se culpados por não serem capaz de participar da sociedade consumista, que tanto trabalha com esse sentimento para instigar a compra. Os consoles – plataformas com jogos muitas vezes exclusivos a cada um – são semelhantes, porém um caso ainda mais predatório. Esses produtos nasceram dos árcades antigos, locais onde havia máquinas onde cada uma jogava um jogo diferente (ou não). Os consoles são a ideia de levar estas “máquinas” para casa, poder tê-los e jogá-los quando quiser, além de ter uma variedade de atividades em só um.
Ao invés de se extinguirem assim que os computadores eram capazes de fazer o mesmo ou ainda mais que, eles sobreviveram através das pessoas que continuavam a comprá-los sem nenhum tipo de racionalidade. As empresas investiram então nessa indústria, que até agora continua forte – tão forte que há pessoas defendendo seus próprios “consoles” com unhas e dentes como se para reafirmar a validade de sua opção.
Outra situação atual que é a epítome desta inclusão e exclusão são as redes sociais. Assim que alguém não está inserido em uma delas, vê-se um estranhamento – como se as redes sociais fossem o meio último de utilização da grandiosa internet. Alguns destes serviços em si, na verdade, são considerados como de uso de pessoas de baixa renda ou desinformadas em geral – dois conceitos que andam mão a mão na internet, sendo sempre ridicularizados, como se a rede devesse ser de uso exclusivo da camada burguesa. Dentro dessas redes há um grande movimento de autoafirmação e de presunção, ainda mais adolescente. Frases óbvias são tidas como algo poético e o ser humano afunda-se na lama da ignorância, sem ao menos aceitar opiniões exteriores. É explícita a divisão destes grupos, possuindo cada um uma variedade de pequenas “comunidades” dentro da rede social que se excitam em se rodear de pessoas prontas para alimentar suas certezas dogmáticas.
Conclui-se, logo, que os conceitos de inclusão e exclusão digital, apesar de serem considerados dois lados da moedas, andam juntos em direção a uma segregação “internética” e alienação do pensamento – além de serem, em um certo nível, sobrepostos um ao outro (enquanto um é incluído de modo exclusivo e segregado, o outro é mais aceito etc.). Uma mudança de pensamento é necessária, além de uma postura de maior aceitação em relação ao uso correto da internet e ferramentas digitais em geral.

Por Ariel Lemos Dias.

Mestre Lua, Liberdade e Voz.

Entre o filho de Pai Januário e Mãe Santana, o escritor Jorge Amado e o grupo ativista Anonymous poderia haver uma distância considerável, se não houvesse a bandeira que movimenta cada um destes notáveis. GONZAMADOUS é um acrônimo destes três pilares: o compositor e sanfoneiro Luís Gonzaga, o escritor e jornalista Jorge Amado e o grupo de hacker-ativismo que atualmente tem movimentado o mundo, tanto virtualmente quanto através de protestos “ao vivo”.
Luís Gonzaga, Rei do Baião, nasceu em um pequeno povoado pernambucano e aprendeu a tocar a sanfona ainda menino. Na juventude, apaixonou-se por Nazarena, e rejeitado pelo pai dela, manteve um namoro às escondidas com a moça. Quando os pais dele descobriram, deram-lhe uma surra, e o rapaz, revoltado, fugiu para entrar para o exército. Durante os anos desta fuga, Luís apresentou-se em rádios cariocas com seus primeiros sucessos, conquistando o sudeste do Brasil com os sons do sertão. Gonzagão foi e ainda é o porta voz de um povo rotineiramente esquecido. Com a sanfona alegre e letras frequentemente sofridas, como em Assum Preto, ele traduziu a dualidade de uma gente que por mais que passe por momentos difíceis, sabe que a melhor maneira de seguir em frente é com alegria e esforço.


Jorge Amado, Obá de Xangô, foi outro homem apaixonado por sua terra. Suas obras nos fazem ver um povo atrevido e cheio de manhas. Seus personagens são crus, chocam os mais pudicos, mas não mascaram a verdade em prol do bem estar de ninguém. Desde a perseguição por suas ideias políticas, que levaram inúmeros exemplares de Capitães da Areia e Cacau a serem queimados; até a indignação de muitos com a sexualidade presente em outras de suas obras, Amado levou o conceito de arte ao pé da letra, incomodando na esfera política e social. Como deputado, ele criou a emenda que garantia a liberdade religiosa no Brasil, levando para uma esfera prática as suas ideias.
Já o mais recente dos componentes do nome da equipe, o grupo Anonymous, quer passar a ideia de um cérebro global, promovendo principalmente a liberdade de expressão. Sua forma de protesto é adequada aos novos tempos, em que a queda de um site prejudica de forma concreta uma organização. Protestos online, como os realizados contra as leis SOPA e PIPA, o monitoramento de pedófilos na rede e a “derrubada” de páginas na internet, além da participação física em diversas manifestações, criam uma consciência de que é preciso lutar pela liberdade, mesmo que sempre tentem cerceá-la. Pensando-se de uma maneira mais “técnica”, a atuação do grupo obtendo informações na rede pode ser estudada em sala de aula, analisando-se as maneiras utilizadas para tirar do ar páginas como a do Governo da Bahia, durante a greve dos policiais militares, e a da CIA. Uma das mais simples é o Ping Of Death, ou Ping da Morte: técnica que demonstra o quanto o conhecimento e o poder de derrubar algo na internet através de um comando básico estão ao alcance de todos.
Anonymous é assim, dá voz a quem está afastado dos centros de decisão que movimentam os países, tal qual Jorge Amado e o Mestre Lua trouxeram visibilidade aos brasileiros mantidos à margem, mostrando quais são suas necessidades, dores e anseios, e, por que não suas alegrias? Gonzamadous, portanto, acredita em uma educação que valoriza nossas raízes, condição fundamental para que cidadãos tenham consciência de sua realidade e queiram mudá-la. Outro pilar é a liberdade em todas as suas formas, sempre respeitando o espaço de outro anônimo que só deseja ser feliz e fazer a diferença.

A logomarca.


A máscara de Guy Fawkes, da HQ V de Vingança, foi adotada pelos Anonymous como seu símbolo. Fawkes representa o homem e a mulher comuns, que lutam por liberdade e o direito de conduzir sua vida sem a interferência dos “grandes”, que tantas vezes prejudicam aos demais em prol de objetivos mesquinhos. O chapéu característico do sertão foi incluído por todos aqueles em nome de quem Luiz Gonzaga canta: a gente sofrida, a moça namoradeira, o vaqueiro e todas as aves desta terra tão ambígua, também representada por Jorge Amado. O baiano é homenageado pelo seu bigode marcante, tantas vezes citado por quem se lembra do escritor. Outra recordação muito comum é a do óculos do Rei do Baião, que de olhos escondidos relaciona-se ao Assum Preto, que ”cego dos oio,num vendo a luz, ai, canta de dor”.